Carlos Scarinci / 1989



Num primeiro contato, a escultura de Mauro Fuke (Porto Alegre, RS, 1961) parece armação surrealista, cilada para os sentidos, que o desejo convoca para satisfação sequer sugerida. Detrás das muitas portas, tampos e fechos, sucedendo-se uns aos outros, se desatados, destaramelados, giradas as dobradiças, enfim abertos, talvez se possa olhar dentro, para arrepio do olho, formas que só o tato pode compreender.
Há qualquer coisa das maquinações de Man Ray, Alberto Giacometti, Joseph Cornell, Javachev Christo, mas também das madeiras de lsamu Noguchi, Marta Pan, e das pedras de Stockinger. São confluências ocasionais que talvez o artista não reconheça.
Com exceção das últimas, o que aquelas obras têm em comum não parece ter influido na iniciação do artista. Filho de japoneses, Mauro conta uma história suavemente sobressaltada. Mistura à boa formação escolar de filho admirador das habilidades artesanais do pai e da mãe, carpintaria e macramê, com histórias de jovem rebelde, que foge de casa (rito de iniciação?), para experiência alternativa hippie, em cidades, praças e praias brasileiras, sustentando-se com a produção de esmeradas caixinhas porta-jóias. Da formação técnico-científica do colégio, ele traz para o Instituto de Artes / UFRGS, onde ingressou em 1981, uma ingênua determinação realista, de hiper-realismo tão minucioso que, na verdade, quase muda modernidades em fantasias futurizantes.
Foi esta índole contemporânea que a professora Romanita Disconzi descobriu, quando percebeu nas caixinhas que abriam portinholas, umas sobre as outras, sobre cheios, sobre vazios, mudando as matérias, (madeira, osso e marfim, pêlos, cerdas e couros, palhas e lãs), possibilidades de arte bem mais estimulantes que o exercício da transcrição verista a que, com esforço, ele se dedicava. Já ficava, no entanto, patenteada àquela altura, a variedade de estratos de realidade que interessavam à inteligência sensível do artista-aprendiz, no começo dos anos 80. Mundos de ficção e sonho, no seu segredo e unidade, na sua capacidade de transformações variáveis, é que iriam, daí em diante, ocupar Fuke, que passaria a complicar suas já circunvolutas caixinhas, que de porta-jóias virariam vivas máquinas mutatórias.
As esculturas de Fuke, ainda que pareçam arrancar do solo surrealista, de exercício de automatismos da consciência (pois apontam, para as máquinas de humor dadaísta pintadas por Duchamp, Picabia e Klee) são, no entanto, outra coisa.
Não se definem a partir de conceito crítico-historiográfico, mas de intuição direta do sistema de consumo e informação de massas, penetrado, aqui e ali, de ciência e poesia. Especulativo, o artista não deixa de se perguntar sobre as origens de tudo, sobre as articulações do real lá demonstradas, ou ainda ocultas, até secretas, sobre acoplamentos, e disjunções, cópulas, inseminações, germinações, dispersões e emergências, fusões e fissões, partos, e, além de tudo, sobre destinos individuais e coletivos.
Assim, a escultura de Mauro Fuke escapa às malhas das classificações tradicionais, pois sendo arte dos anos 80, se dobra sobre a história, sobre os soçobros do tempo, e reflexiona noutro sentido.
Mas o que faz o sucesso, a sedução pública da obra de Mauro, é a maestria artesanal do corte, a raiz tradicional das técnicas (orientais) de polimento das madeiras. E a escolha das cores e texturas, o agenciamento dos veios, além da mistura estranhamente elegante de materiais têxteis tão desaparentados, mas que são (artesanalmente) de novo pai e mãe.
Mais... fascina a construtividade, a invenção científica, planejada, das suas esculturas, máquinas inesperadamente lúdicas, a mecânica de brinquedo das peças vegetais e animais, reunidas por doida tecnologia. Elas se acoplam e engrenam... sexualmente, atraindo o olhar e a ação táctil do espectador para toques, carícias e leves trações, que põem em movimento sua intransigente lógica do inesperado.
Há, pois, algo visionário na obra de Fuke : são esculturas para se ver através... do toque, movimento que desatarraxa o mistério. Tendem a revelar a relação prazer-dor-conhecimento e faz de todos os seres, também dos humanos, criaturas larvares, crisálidas de mundos futuros. São as flores-animais-máquinas do desejo de parir homens novos e sociedades possíveis.



Carlos Scarinci / 1989

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