Lia Menna Barreto / 1995

A Superfície nos trabalhos de Mauro Fuke


Nas recentes esculturas em madeira de Mauro Fuke há uma preocupação com a superfície, o que não é novidade dentro de sua obra. Suas esculturas sempre enfrentaram o público exibindo superfícies com acabamento impecável. Após serem submetidas a vários tipos de lixas, as superfícies recebem várias camadas de protetores e são lustradas, escondendo todo o caminho percorrido pelo artista até o resultado final. Nesse processo aparece o Mauro Fuke artesão, indispensável na realização dos trabalhos. O artista tem sido fiel ao uso da madeira desde o início de sua carreira. Seus trabalhos tem origem numa empatia natural com ela. Seus primeiros encontros com o material mostram-nos formas onde o que mais transparece é o imenso prazer de esculpir.

Em trabalhos anteriores, as entranhas da forma eram mostradas através de complicados mecanismos de abrir-fechar, onde pequenos universos eram meticulosamente planejados para atiçar o espectador, sua maior presa. Atualmente nada entra e nada sai das esculturas de Fuke, pois os mecanismos sumiram. O que encontramos agora são verdadeiras jóias com formas geométricas lacradas, que impossibilitam o acesso ao seu interior e mostram a obsessão do artista pela precisão matemática. Nas superfícies podemos ver um impecável trabalho de marchetaria com cubos desenhados em perspectiva. Esse tipo de solução distrai propositadamente o espectador com sua beleza e ilusão de ótica, substituindo o apelo táctil, tão caracteristico nas obras do escultor, pelo visual.

Juntamente com goivas e lixas, o computador auxilia na elaboração dos cálculos e projetos para as esculturas do artista. É interessante acompanhar o cotidiano do Mauro, que organiza seu dia separando metodicamente o trabalho mais mental, feito com o computador , daquele que exige maior esforço físico, o trabalho na madeira. Mauro Fuke não está interessado em mudanças bruscas, suas conquistas são lentas, seus trabalhos levam meses para ficar prontos, nada faz com que ele tenha pressa. Sua última exposição individual data de 1986.

O processo de trabalho obedece à um ritual que se repete inabalável com o passar dos anos. O artista parece ter um pacto com o tempo. Imagino suas esculturas sendo apreciadas geração após geração, protegidas, silenciosas e belas.


Lia Menna Barreto

outubro de 1995 quando da exposição na Galeria Bolsa de Arte.

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